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terça-feira, 4 de agosto de 2009

Um desejo sem fim



(Ramón Peres de Ayala)
( 1881, Oviedo (Espanha) / ? (Espanha)


Viver não é senão amar.
Amar, três coisas pode ser:
desejar, possuir, recordar.
Costuma a possessão nos amargar
como a lembrança entristecer.
Sintamo-nos viver,
pondo um pouco de lado este prazer,
mesmo quando o possamos desfrutar.
Andar em frente, o ontem esquecer.
Desejar, desejar até morrer.


(tradução: Walmir Ayala)

No deserto



(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino
Eu te debelo com espora e rédea

Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilônia
Nem nos rios sangrentos de Nínive

Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo

Por isso te debelo te combato te domino
E o frio te corta a espora te fere a rédea te retém

Para poder soltar-te livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas não perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo.

Leia mais poesias de Sophia de Mello Breyner Andresen:

- Jornal de Poesia
- Releituras
- Aldeia

Os laços



(Sully-prudhomme)
(1839, Paris (França)/ 1907, Chattenay (França)


Querendo a tudo amar, trago a alam dolorida,
Porque multipliquei a causa dos tormentos...
rágeis laços, grilhões inúmeros, cruentos,
Prendem meu coração às coisas desta vida.

Tudo a um tempo me atrai e enlaça-me igualmente:
Por seu brilho, a verdade e seus véus, o mistério;
Minh'alma se une ao sol num raio de ouro, etéreo,
E em mil fios de seda a cada estrela ardente...

A cadência me prende à ária que triste evoca;
Seduz-me a veludez da rosa entre os abrolhos;
Eu de um sorriso fiz o grilhão dos meus olhos
E fiz também um beijo a cadeia da boca!

Assim, cativo sou de quem adoro, a esmo...
Suspenso é meu viver nesta rede que o enlaça...
E quando o menor sopro entre aquleas perpassa
Sinto um pouco de mim se arrancar de mim mesmo.

(tradução Álvaro Reis)

Infelizmente, não encontrei nenhum outro link - em português - para se ler mais poesias desse autor. Mas, no original, em francês... há o seguinte sítio, em formato pdf:
- Domínio público

(sem título)



(Victor Hugo
1802, Besançon (França)/ 1885, Paris (França))


Oh! vem quando eu dormir, ao pé de onde me deito,
como, outrora, a Petrarca ia Laura; e, ó visão,
que eu sinta o teu perfume e ele me toque o peito...
De repente em meu leito,
meus lábios sorrirão!

Sobre a minha cabeça, onde talvez falece
o negro sonho que é minha eterna aflição,
que desça o teu olhar como um sol que alvorece...
Súbito, minha prece,
meus sonhos brilharão!

Depois, em minha boca, onde volteja ardente
uma chama de amor que os astros bendirão,
deixa um beijo; e, mulher, em vez de anjo, presente,
Verás que, de repente,
Meus olhos se abrirão!


[b]Para ler mais poesias de Victor Hugo:[/b]

- clxv
- Site do Escritor
- Nosso São Paulo