quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Aves de Arribação, de Antônio Sales

Aves de Arribação, de Antonio Sales
Aves de Arribação, romance publicado em forma de folhetim no antigo jornal "Correio da Manhã" e editado em livro em 1914, é a principal obra do escritor e poeta Antônio Sales. Romance impressionista que deu curso à linha do naturalismo de Eça de Queirós.

A obra é eclética, de conteúdo romântico, na preocupação que teve o filho amante de sua terra em não mostrá-la, como sempre acontecia com os naturalistas, e ainda hoje ocorre, com os chamados neo-realistas, pelo lado da tragédia: a seca, a fome, o banditismo, os tremendos descompassos sociais, a política revoltante e feudal; antes, pintando, a modos de Taunay de Inocência, 1872, um Ceará verde, na pacata normalidade subseqüente a períodos chuvosos, de molde a revelar, com suas tintas, por assim dizer, de miniaturas, ora a alegria serena do campo, o encanto rústico do trabalho no eito, da natureza em sua equilibrada manifestação, ora na umidade da mata exalando o acre e variegado perfume, ora o bucolismo garretiano dos entardeceres, mas demorando-se o romancista, de preferência, salientamos, machadianamente, no retratar, incisivo, se bem que sutil, dos personagens, ora com ternuras de um Alencar, ora com o sentido caricatural de um Lima Barreto.

Aves de Arribação, como bom romance regional de contextura universal, foi composto com senso de observação, humor e muito amor, e sobretudo num estilo que não souberam ou não quiseram utilizar os escritores seus contemporâneos.

Enredo

O período histórico da narrativa encerra-se entre o final da Monarquia e a instauração da República. A cidade fictícia criada por Antônio Sales é Ipuçaba, interiorana e monótona, sem muitas novidades, a não ser pelas palestras a respeito de política ou dos fuxicos que, freqüentemente, são ouvidos nas calçadas e que se relacionam, em sua maioria, às vidas alheias.

O romance inicia-se relatando a figura de Padre Serrão, um sacerdote inescrupuloso, egoísta, ganancioso que é responsável pelos paroquianos de Ipuçaba. Peadre Serrão tinha uma biografia apagada e mediocremente edificante. Despido de fervor evangélico... tem uma sólida indiferença à conduta religiosa dos seus paroquianos, aos quais administrava os sacramentos já um tanto maquinalmente, apenas preocupado com os proventos que embolsava, e graças ao seu interesse pelo dinheiro, é muito amigo de João Ferreira, chefe do Partido Conservador, um homem desprovido de caráter, dono de um passado misterioso e que enriqueceu às custas do Coronel Herculano, chefe liberal, que possuía atitudes de homem sério e bom. Herculano fornece dinheiro a João Ferreira para que este se estabeleça com uma casa de comércio. À medida que enriquece, Ferreira despreza Herculano, trapaceando-o e fazendo com que o Coronel siga o rumo da falência, depois que este paga, por ser fiador, a falsa falência de João Ferreira. Descoberta a farsa, Ferreira é preso por aproximadamente um ano.

Saindo da cadeia, vai a Fortaleza e volta de lá com dinheiro e com o título de delegado de polícia. Passa a disputar a autoridade com Herculano e ainda é ajudado pelo vigário Serrão. João Ferreira exercia a dominação pelo terror. Tinha a melhor casa da cidade, aumentou seu comércio, montou uma fábrica de descaroçar algodão e comprara várias fazendas de criação de gado, juntamente com ele prosperou o Padre Serrão.

Com a chegada da República, os chefes de ambos os partidos foram postos de lado para dar lugar a novas figuras designadas pelo Centro Republicano de Fortaleza. Ferreira declara-se ainda monarquista, pois não seria a favor da "canalha república".

Padre Serrão morre e o seu sobrinho, Padre Balbino (José Serrão) assume. Balbino, sujeito pouco inteligente, não tinha vocação política e não ata laços com João Ferreira, aproximando-se de Chico Herculano. Balbino era querido entre os "pequenos" da cidade.

Era costume de alguns ipuçabenses reunirem-se em rodas para palestrar ao cair da tarde. O vigário se sentava à calçada para fumar seu charuto sob uma velha mungubeira, enquanto a roda se formava. Asclepíades Oreste de Aconcágua Pinto era o primeiro a chegar, tinha um ar soberbo de praciano só pelo fato de ter morado em Maranguape, perto da Capital e ter viajado ao Rio de Janeiro. Toda vez que dirigia a palavra a um nativo lançava mão do chavão: vocês, matutos.... Era compadre de Padre Balbino, pois este havia batizado-lhe os três primeiros filhos, quando ainda moravam em Maranguape e era padrinho de Florzinha, uma das filhas de Asclepíades. Chegava também à calçada o escrivão Casimiro, parceiro de gamão do Padre Balbino; professor Agrela, que tinha uma queda pela "pinga", pela "branca"; Lucas bodegueiro, entre outros. A casa do padre estava em reforma para recepcionar o sobrinho promotor que estava para chegar. O vigário morava com uma criada velha (Josefina), cozinheira, e um rapazinho (Bernardino) para mandados.

No dia 20 de fevereiro chega a Ipuçaba o promotor Alípio Flávio de Campos, sobrinho de Balbino e autor de "Pingentes", um livro de poemas prefaciado por Tobias Barreto. Certa vez, vindo ao Ceará, em visita ao tio e para vender alguns terrenos que seu pai lhe deixara, recebeu uma carta do tenente-coronel Francisco Herculano oferecendo-lhe a promotoria de Ipuçaba. Não aceitaria, mas uma carta do tio, que tanto lhe ajudara no período acadêmico, faria ele mudar de idéia, aceitando a possibilidade de ganhar os primeiros dinheiros de sua atividade, embora fosse contra a própria vontade.

Alípio era sábio apenas nas palavras, pois na faculdade de Direito não foi dos melhores, era muito boêmio e farreava demais, ele gozava à larga a mocidade que é como a flor do lótus, que em cem anos floresce apenas uma vez... e com esse dom da oratória polida, foi conquistando espaço nas melhores rodas de Recife, gente importante saldava-o, tinha prestígio. Por conta da vida fácil que levava, mesmo sendo sustentado pelo tio Balbino por algum tempo, foi-se arraigando em si um sentimento egoísta, onde "gozar e subir" eram os prazeres do moço. Até mesmo quando é convidado para participar de um grupo positivista diz não, pois um sujeito pagão habitado por uma alma nietzschiana não faria parte do puritanismo cívico do Senhor Comte.

O promotor chega a Ipuçaba montado no cavalo Sanhaçu, providenciado por Herculano com o único intuito de uma entrada triunfal na cidade e é recebido na casa de Asclepíades, para um almoço. O povo recebe o promotor: banda de música tocando a Marselhesa (Originalmente canto de guerra revolucionário e hino à liberdade, a Marselhesa impôs-se progressivamente como hino nacional francês. Hoje ela acompanha a maior parte das manifestações oficiais), hino provisório da República. O coletor apresenta sua mulher, D. Claudina, a filha mais velha, Florzinha e seu bando de filhos, ao todo eram dez filhos vivos e três mortos, a maioria de nomes esdrúxulos, que de imediato foram chacoteados por Alípio, generalizando-se as gargalhadas dos demais presentes.

No jantar de recepção, realizado na casa de Chico Herculano, Dr. Alípio, além de reencontrar Florzinha, a filha mais velha do coletor Asclepíades, conhece a professora Bilinha. Dança com as duas.

Ao contrário do que pensava, Alípio não encontrou tédio em Ipuçaba, mas sim rodas de novos amigos nas quais palestrava. Filava o café ao meio-dia na casa da professora Bilinha e todos os dias ia à casa do coletor Asclepíades. O coletor tinha por desejo casar Florzinha com o promotor e tudo concorria para isso, pois o promotor era sobrinho de Balbino que era padrinho de Florzinha. Porém, casamento não era a vontade de Alípio, que um dia, fazendo a barba, disse: A matutinha é chic...excelente para encher os ócios de um exilado; mas quando ao casamento, livra! Fora a pieguice!.

O poeta ipuçabense, Matias de Araújo, faz uma visita a Alípio. Matias era muito rejeitado em sua terra, mas "na Fortaleza" ou em Sobral, seus versos eram bem aceitos. Na visita, o poeta fica perplexo com o realismo cru do autor de Pingentes, viu que não havia mais o lirismo que Alípio tinha escrito em versos, mas um homem soberbo que o apresentou a uma coleção falsificada das Sensuais de Rabelais (foi um escritor francês do Renascimento. Rabelais é o modelo perfeito do humanista do renascimento, que lutava com entusiasmo para esquecer a influência do pensamento da Idade Média, inspirando-se nos ideais filosóficos e da antiguidade clássica. Foi monge franciscano, depois beneditino. Posteriormente abandonou a ordem, mas não a batina. Imaginou a Abadia de Thélème onde a única regra seria "faça o que quiser". Foi autor de obras satíricas como Gargantua e Pantagruel, propôs a filosofia pantagruelista); Martins corou, pois se tratavam de assuntos mais modernos. Em certa altura da conversa, Alípio pede que Matias recite alguns versos do poema "Coração errante" ...daí Alípio deduz que Matias gosta de D. Bilinha, a professora. Em meio à conversa, Matias nega tal envolvimento, apesar da insistência de Alípio e dos versos que acabavam por entregar o poeta. A amizade entre Alípio e Matias se firma. No domingo, vão à tradicional Feira, onde pessoas de diversas localidades se reunem para ouvir a Missa, conviver e comerciar. A Feira é o lugar onde surgem das mais variadas conversas. O tenente Chico Herculano fazia compras e as mandava para Bilinha; Joca Neves é conhecido como o criador de conversas e apelidava a todos que passassem pela Feira.

Alípio recebe a alcunha de "Frango suro", devido às roupas justas que usava. E é da Feira que saiam os rumores dos romances, nos quais Alípio estaria namorando D. Bilinha e Florzinha, porém teria um concorrente, o tenente Chico Herculano, apaixonado pela professora. Diziam que Alípio daria o coração a uma, e o resto, à outra, mas ao fim de tudo não ficaria com ninguém, enganando-as. Depois Chico Herculano demitiria Alípio e a professora, choraria o fracasso amoroso junto à Asclepíades, romperiam com o Padre Balbino que não casaria ninguém, mas talvez tivesse que batizar algum enjeitadinho....

Depois da Feira, dirigem-se à casa do coletor, iam buscar Florzinha para ouvir à Missa, mas Matias se recusa a acompanhá-lo, pois não queria confirmar que o promotor também gostava de Florzinha.

Após a Missa, acontece um alvoroço na Feira, pessoas corriam desesperadamente e depois soube-se o que acontecera: Zé Pipoca, cangaceiro de João Ferreira, apareceu na Feira, desafiando as praças, enfrentou- os, mas foi mortalmente ferido, depois de ter ferido alguns soldados, caindo sobre a calçada de João Ferreira, que tenta colocá-lo para dentro de casa, mas é impedido pelos soldados. Zé Pipoca é preso.

Pela noite, depois do incidente, Alípio e Matias vão à casa de Bilinha, conversam sobre Literatura, conversa essa que não agrada D. Maria Lina, mãe da professora, que fica a conversar com D. Benvida e Venâncio, seus vizinhos muito retos de conduta e muitos queridos pela sociedade; graças aos seus caracteres serviçais e acolhedores. No intuito de arrefecer a palestra que havia entre Alípio, Matias e Bilinha, D. Benvida chama-os para uma patida de Víspora (o mesmo que bingo, loto, um jogo com cartões numerados). Alípio aceita de pronto, seguido de Matias e Bilinha, que aceitou sem entusiasmo. Desde então, passaram a jogar todas as noites.

Porém, D. Helena, esposa de Chico Herculano, adoece de uma pleurisia e Bilinha vai prestar-lhe serviços com as vagas noções que tinha de medicina caseira. Chico Herculano pede que ela fique cuidando da enferma. Bilinha aceita em consideração aos muitos benefícios que ele a fornecia.

D. Helena não confiava em Bilinha, mas com o passar do tempo aceitou-a e nutriu por ela uma grande amizade. Todas as noites, Herculano ia conversar com elas no quarto e, entre essas conversas, o tenente conta que Alípio estava sendo ameaçado de levar uma surra do mandante do incidente na Feira, o João Ferreira. Bilinha se revolta com a situação e revela o quanto odeia estar naquela cidade repleta de caluniadores.

Durante a noite, Bilinha pensa em Alípio e o quanto está segura de que não se renderá aos encantos do bacharel, sua vontade é de apenas "flertar". Ela que estava acostumada em só se relacionar com parceiros ruins, agora lhe surgira um novo e mais perigoso exemplar dos gênios maus. Bilinha pensa em seu passado obscuro, não sabe de sua origem, e pensa na mãe, que tinha um passado sujo por ter se entregado a homens, por ter sido desonrada e não ter sido mulher direita. Por esses motivos, a professora sente ódio e desprezo pela mãe, D. Maria Lina.

D. Helena melhora e a casa se enche de visitas, Bilinha e Florzinha conversam e Florzinha demonstra o quanto se sente incomodada com as histórias que a cercam e também pelo possível relacionamento entre a professora e o promotor. Florzinha também fala do seu desprezo pela cidade e do quanto almeja sair dela. Sendo essa a última noite de Bilinha na casa de Herculano, esse aparece a noite na janela do quarto da professora. Bilinha se assusta, pergunta o que Herculando quer e esse tenta agarrá-la. Bilinha consegue fechar a janela e depois chorar desolada por ter mais um desgraçado em seu caminho.

Certa vez que Florzinha fazia crochê no quintal, a ex-escrava Mariana comenta sobre o que estão falando da menina e do promotor, Florzinha se desespera e encontra amparo nos braços da mãe. Asclepíades não se importava com o sofrer da filha, e sim com a vontade de casá-la com o bacharel. Florzinha passa a evitar a presença do promotor, fato que desagrada profundamente o coletor.

Mas uma oportunidade alegra Florzinha, iria para a Varjota, fazenda do tio, o capitão Galdino de Moura, lá ela estaria longe de Alípio e poderia esfriar a cabeça e colocar as idéias no lugar. Depois de uma tanto esperar, chega o dia de viajar e Florzinha vai para a Varjota, ficar do lado da melhor amiga, a prima Luizinha. Morava também na fazenda Cazuza, o outro filho do capitão e seu auxiliar na labuta.

Depois da partida de Florzinha, o jogo de víspora retornara à casa de Bilinha, mas agora com a presensa vigilante e desagradável do Coronel Herculano, que fazia com que o jogo logo perdesse o vigor e os participantes se dispersassem. Era objetivo de Herculano atrapalhar a convivência entre Alípio e Bilinha.

Certo dia, Herculano vai à casa de Alípio e, por chacota, o promotor diz que irá casar com Bilinha, Herculano sai da casa do promotor irritadiço.

Numa noite em que o víspora começara mais cedo, uma forte chuva cai sobre Ipuçaba e os jogadores dirigem-se às suas casas, restando apenas Alípio, a professora e D. Maria Lina, que se retira para o quarto e os deixa sozinhos na sala, depois e um ínterim de silêncio, D Maria Lina vai olhar o que se sucede com a filha e percebe que ela e o promotor tinham se rendido à tentação e mantiveram relação sexual na escolinha, que ficava ao lado da casa de Bilinha. Desde então D. Maria Lina se felicita de tal fato, pois agora Bilinha não poderia masi tratá-la com tanto desprezo, pois tinha decido ao mesmo patarmar da mãe, o sangue a pregou essa peça, o sangue das mulheres que se perdem na vida, que se desencaminham por causa de homens que as galanteiam, as desonram e nada mais.

Chega a notícia de mudanças no governo, uma vez que o generalíssimo (Deodoro da Fonseca) demitiu o primeiro ministério e chamou Barão de Lucena (ex-monarquista) para organizar um segundo ministério, fato que poderia mudar os rumos da política em Ipuçaba assim como em outras partes do Brasil, uma vez que causou cisão entre os responsáveis pelo poder na República, partidários desgostosos com a escolha de Deodoro passam a apoiar Rui Barbosa. O poder, em Ipuçaba, poderia até passar às mãos de João Ferreira, Lucena era amigo pessoal de Alípio e esse se mostrava favorável a Deodoro.

Alípio adoece gravemente, "uma constipação feroz", uma gripe forte, mal de família, o derruba, deixa-o acamado. Casimiro procura por Pinheiro, um metido a médico caseiro e ao mesmo tempo curandeiro. Alípio é traslado até a Varjota, onde receberá toda a assistência do capitão Galdino e de sua esposa, D. Maroca. O bacharel passa bom tempo debilitado, mas as suas feições de frágil, chamam a atanção de Florzinha. A enfermidade fez com que Alípio pensasse na sua fragilidade e do quanto dependeu daqueles “matutos” que se não fossem eles, sua vida teria acabado. A partir daí, demonstra sinais de melhora, não só de saúde, mas também de alguns conceitos em relação à vida. Quem cuidava de Alípio era Cazuza, irmão de Luizinha. Matias, que estava numa fazenda próxima à de Galdino, foi visitar Alípio. Asclepíades não gostava de Alípio, pois pensava que esse gostava de sua filha e poderia ser um impecilho no casamento de Florzinha. No entanto, Matias gostava de Luizinha, a prima de florzinha e era correspondido, ao saber disso, Asclepíades passou a apoiar essa união que ele não desejava para sua filha. Galdino e Maroca gostavam de Matias, fato que desagradava profundamente o coletor.

Casimiro chega com notícias de Ipuçaba, apareceu por lá um vendedor de cavalos e dentista nas horas vagas, seu nome era Florêncio Cavalcanti de Albuquerque. Capitão Galdino se interessa por essa notícia, pois tinha uns animais para passar no cobre. Alípio conhece Florêncio e o chama de Florencanti, como lhe chamavam no Recife. Era o herói da Florenciada, um poema que fizeram para ele. Florêncio havia sido traído pela primeira esposa, ela o traíra numa república de estudantes, porém quando saiu de lá doneça, Florêncio cuida dela até que ela morre, um ato nobre.

Alípio melhora definitivamente e passa a conviver melhor com os outros da casa. Formam-se rodas no alpendre da casa para palestras diversas, Florzinha e Alípio sempre trocam olhares, mas o promotor não esquece D. Bilinha.

Alípio pensava que todas as circunstâncias o levaram a estar ali, cercado por uma família e, devido a tantas obrigações que ele os devia, sentia-se quse na obrigação de pedir a mão de Florzinha para o casório. Ele só não aceitava aidéia de se se casar com uma matutinha daqueleas que mal sabia dançar, ou se portar nos grandes salões que ela viria a conhecer quando esposa dele, era uma perda de tempo, um atraso, uma dose maldição.

Certa manhã, Alípio decide caçar, e sai pelas matas da Varjota em busca do que ele prometer a Galdino, ser o almoço do dia. Alípio acertou alguns jacus e depois, quando voltava para casa, ouviu passos quebrando os frágeis galhos na rama, e depois... ouviu risadas. Deparando-se com uma espécie de cabana, escondera-se para não ser pego em flagrante e mirou por uma fresta. O que viu foi de fazer o coração acelerar, era Luizinha e Florzinha, talvez fossem tomar banho no rio e a idéia enchia Alípio de um prazer imódico. Luizinha começa a se despir e encoraja Florzinha a fazer o mesmo, quando Alípio contempla a imagem da beleza nua das duas moças fica perplexo, espera que elas se afastem e volta para casa. Porém, na volta encontra o garoto, o Neco, que estava sentado um pouco distante do promotor e que fazia o mesmo que ele, olhava as moças tomarem banho. Alípio fez ameaças a Neco caso ele revelasse alguma coisa a alguém. Alípio se aproxima mais ainda de Florzinha e Matias se enamora mais intensamente por Luizinha. A partir de então, Cazuza começa a se afastar de todos, porque tinha paixão pela prima, Florzinha, e a presença do promotor passara a desagradá-lo.

Alípio parte com Asclepíades para Ipuçaba, na promessa de que assim que voltasse da Capital casaria com Florzinha. No julgamento do Zé Pipoca, acontece um fato que determina o fracaso e a falta de expressão política que se encerrava Herculano: Zé Pipoca, defendido pelo advogado Francisco Mirabeau, de Iguatu, é libertado por nove votos contra três.

Florêncio passa a se relacionar intensamente com Bilinha, vai sempre a casa dela acompanhado do escrivão Casimiro. Benvinda vê o casamento com bons olhos. Porém Bilinha demonstra insegurança, por não conseguir se livrar de Alípio, mesmo em seus pensamentos. No entando, Alípio trama de visitá-la para avisar da viajem a capital. Bilinha chora muito e diz a Alípio o quanto ela se sentia mal por ter sido abandonada, por ter sido usada. Alípio inventa uma história para Benvinda, dizendo-a que Bilinha era viúva, entre outras coisa, diz que tem outras traumas de Bilinha que ela não quer sequer lembrá-los e Benvida fica perplexa. Alípio pede que Benvinda o ajude a fazer o casamento de Bilinha e Florencanti. Essa aceita desde que Alípio garanta que não está mentindo.

Alípio, antes de partir para capital avisa a Asclepíades que na volta pedirá a mão de Florzinha. Florzinha volta para Ipuçaba e percebe que ainda continua sendo espionada pela população, ela era agora a noiva do promotor, que ninguém sabia se ele iria mesmo pedí-la em casamento, era esperar pra ver. Florzinha tem uma conversa séria com a mãe, depois que essa lhe conta da carta que Galdino recebera quando chegou a Ipuçaba. D. Maroca escrevia dizendo que Cazuza queria ir embora para a Amazônia, trabalhar nos seringais, pois se sentia frustrado e só. Galdino ratificou a sua vontade de ter casado seu filho com florzinha, mas o desejo fútil de Asclepíades strapalhou tudo. Não deixaria seu filho morrer nas Amazônias. D. Claudina apoia Florzinha em qualquer decisão que ela tomar, mesmo que seja contrária a do pai, mais florzinha não deseja contrariá-lo, apesar de dizer que não se importa csao Alípio não retornasse da capital, entraria para o Colégio e seria freira, sua mãe se opõe a essa idéia veementemente.

Galdino volta para casar Luizinha e Matias e também porque conseguira esposa para Cazuza, um alívio para Florzinha, que se sentia culpada pelo sofrimento do primo. D. Joaninha, a mãe de Matias vai fazer visita a Florzinha, mas a visita, na verdade, era para lembrar ao Asclepíades de que o capitão aceitou que Matias casasse com Luizinha. Agora o “troca-tintas” desprezado por Asclepíades se casaria com uma moça e família bastarda.

Bilinha pede que Florêncio consiga a transferência dela para Fortaleza e de lá ela partiria para Recife onde se encontraria com ele. Assim foi feito, Florencanti consegue a transferência da professora e vai antes dela para recife, onde ficará esperando-a. Alípio viaja para Fortaleza, mas antes toca as mãos de Florzinha e essa sente-se desejada por ele, apesar de sentir vergonha no momento, gosta da sensação e sente-se amada por ele.

Numa nite em que mulheres se reuniam na calçada de D. Claudina para conversar, uma delas diz uma frase que faz Florzinha despertar: a professora está de viagem. Florzinha associou, pela primeira vez, as duas viagens e a idéias de eles poderem ter fugido para se encontrar por lá mexeu muito com ela... ela ficou confusa e receosa. Florzinha continuava a esperar, porque continuava a viver.

Os dias passam se arrastando e Florzinha vai percebendo que realmente fora enganada, bem como muitos dos que a cercavam, talvez a frustração maior de ter perdido a vida graças à vontade do pai. Poderia ter encontrado o amor de sua vida, mas não. Aquele que olhara nos seus olhos dizendo que voltaria fugiu e eles dois, o noivo e a amante fugiram, como aves de arribação, tinham-se ido em busca de clima mais ameno ... e ela ficara ali, no fundo daquele triste lar povoado dos espectros dos seus sonhos, para ser um dia conduzida, mutilada d’alma, inútil para a vida, à cela fria de um claustro (mostrando um provável final como freira, mau grado da mãe, e de muita gente, inclusive de Asclepíades Oreste de Aconcágua Pinto) como uma inválida do amor...

É importante perceber que o final do livro fica em aberto. O autor não esclarece o destino de Alípio e Bilinha, se eles ficaram juntos ou não.
Endereço: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/a/aves_de_arribacao

Dias e Dias, de Ana Miranda

Dias e dias, de Ana Miranda
O romance Dias e dias, de Ana Miranda, publicado em 2002, é inspirado na poesia "Dias após dias" de Rubem Fonseca, e constrói a vida do poeta romântico Gonçalves Dias, revelando detalhes pessoais.

Desde o seu começo, apresenta a voz da narradora Feliciana, hoje, uma mulher, que desde menina fora apaixonada por Gonçalves Dias. No romance, Feliciana toma conhecimento da vida íntima de Gonçalves Dias por meio das cartas enviadas pelo poeta a seu grande amigo Alexandre Teófilo de Carvalho Leal. Mostradas a Feliciana por Maria Luíza, esposa de Teófilo, as cartas registram muitas das questões existenciais do poeta. Feliciana descreve de forma emocionante a paixão que as cartas alimentam, e seu relato revela refinamentos da alma feminina.

Estas cartas, freqüentemente citadas no romance, criam uma ilusão de realidade, fazem o leitor esquecer-se da ficcionalidade de Feliciana e de outros personagens que têm existência apenas no romance, colocando-os no mesmo plano de existência de Alexandre Teófilo e Gonçalves Dias.

O romance retrata o século XIX e ainda traz como destaque a revolta da Balaiada, ocorrida em Caxias, além de abordar curiosidades e dados biográficos que traçam o perfil de Gonçalves Dias. A obra combina história e ficção para contar uma história sobre o amor, os costumes provincianos no interior do Brasil durante esta época, a descoberta da cultura indígena, a beleza da poesia e os mistérios da sensibilidade.

A história reúne três personagens centrais: Feliciana, o poeta Gonçalves Dias e o sabi, não um sabiá específico, mas a espécie inteira, que na Canção do exílio simboliza a pátria distante.

Feliciana parece ser a própria incorporação do espírito romântico oitocentista, é uma memória ambulante que transforma Gonçalves Dias num ser etéreo, intocável e, ao mesmo tempo, tão presente. Feliciana é o sabiá, com toda a sua brasilidade, preso na gaiola com saudades do poeta romântico nacionalista. Por outro lado, o romance parece representar justamente a soltura do sabiá, quando apresenta o nacionalismo romântico como parâmetro para uma proposta nacionalista atual.

A trama tecida pela autora faz com que o leitor se identifique com a personagem, que desvenda o que sente por meio da escrita e da memória. Os personagens menores, o pai de Feliciana, colecionador de sabiás; Adelino, um tímido professor apaixonado por Feliciana, e Natalícia, a doce e severa preceptora, conferem ao livro uma grande riqueza humana.

Antonio Gonçalves Dias (1823-1864) é o principal nome da poesia romântica brasileira. Além de Canção do exílio, compôs os principais poemas da vertente indigenista do romantismo, entre eles I-Juca-Pirama e Leito de folhas verdes.

Na obra, os fatos são apresentados em flashbacks e há o caráter cíclico da diegese, a narrativa inicia-se em 03 de novembro de 1864 e ao final do livro nos deparamos com a mesma data, o que sinaliza para os anacronismos, ou seja, as constantes idas e vindas no tempo da narração.

Sob o ponto de vista desta narradora em primeira pessoa do singular é recordada e relatada não apenas sua vida, como também a vida do objeto de seu amor, Dias.

Ana Miranda, de maneira muito inteligente, insere em seu texto, além de poemas, muitas informações verídicas sobre o autor. Esta marca de intertextualidade faz da trama um “mosaico de citações” por muitas vezes parodizadas. Isto, porque a autora utilizando os versos de Gonçalves Dias lhes dá um sentido distinto, o que faz com que, no mínimo, sua leitura deva ser dupla.

Por meio dos poemas inseridos na narrativa de Dias e dias e da presença de correspondências que são trocadas dentro da diegese, as quais a autora teve acesso por meio de trabalhos rigorosos de pesquisa e consulta à arquivos, é composta uma espécie de fotografia de nosso país e as informações contidas no romance contribuem para a formação não só das características do poeta representativo de nosso país, como também de peculiaridades que dizem respeito à nossa pátria amada.

Dias e dias, ratifica-se como uma bela e prazerosa obra de cunho histórico, mas, se o leitor não for atento, nem perceberá o tema maior, devido ao caráter de liricidade romanesca, a história envolvente de um amor platônico. Isto faz com que a obra não seja apenas um romance histórico, mas uma magnífica biografia romanceada, feita nos moldes da ficção. Um romance envolvente que é organizado quase que, como um diário, a partir de sucessivos processos de rememoração de Feliciana.

Ainda que toda a narrativa gire em torno de observações e declarações de Feliciana, isto é apenas um pretexto para que se fale do personagem maior, o poeta Gonçalves Dias. Como estratagema, Ana Miranda utiliza-se de um personagem fictício (Feliciana) para falar de um acontecido histórico. Porém, estes personagens históricos não protagonizam a diegese, servindo apenas como parte do cenário ou “pano de fundo”. Quem protagoniza a narrativa são os homens comuns e, por ser mulher, a narradora Feliciana representa mais do que apenas uma pessoa comum. O fato de as ações serem protagonizadas por seres ficcionais faz com que a ficção fique muito à frente de um mero enfoque histórico.

A proposta da diegese de Dias e dias diz respeito à leitura que o romance fornece da história, ou seja, abordar o momento brasileiro em que há a representação da mulher e do homem do século XIX que, via de regra, o recurso histórico não registrava, Ana Miranda aborda, então, esses elementos que as enciclopédias históricas não abarcam. O olhar de Feliciana é dirigido para o cotidiano, isto é, para a história da condição feminina.

O romance de Ana Miranda está entre aqueles romances da atualidade que apresentam um olhar para dentro do Brasil, focalizando sua arte, sua história, sua cultura, numa busca insistente, neste momento, por uma forma de conhecer ou de reconhecer uma identidade brasílica que se reconstrói por meio da história (literária, no caso de Dias e Dias) e que traz consigo um movimento e um sentimento de nação. O sabiá, neste sentido, surge no romance como símbolo desta brasilidade presente tanto nos poemas de Gonçalves Dias quanto nos romances da atualidade, ainda que de modo bastante diverso.

Este é um romance que se diferencia de Boca do Inferno (1989) por este retorno nacionalista, pelo maior destaque dado ao discurso biográfico e pelo amadurecimento criativo. As notas da autora, ao final do romance, são menos referências bibliográficas do que indicações que auxiliariam o leitor no reconhecimento do caráter documental de seu texto. Por outro lado, estas indicações mostram um caminho para a reescrita ou, pelo menos, para a reconstrução do romance pelo leitor e, para que ele não considere o texto uma colagem irresponsável dos textos de Gonçalves Dias, a autora avisa que “poesias e cartas de Gonçalves Dias foram incorporadas à expressão da narradora.
Endereço: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/d/dias_e_dias

TD Crase

T.D. Crase
1. (IBGE) Assinale a opção incorreta com relação ao emprego do acento indicativo de crase:
O pesquisador deu maior atenção à cidade menos privilegiada.
• Este resultado estatístico poderia pertencer à qualquer população carente.
• Mesmo atrasado, o recenseador compareceu à entrevista.
• A verba aprovada destina-se somente àquela cidade sertaneja.
• Veranópolis soube unir a atividade à prosperidade.
2. (IBGE) Assinale a opção em que o A sublinhado nas duas frases deve receber acento grave indicativo de crase:
Fui a Lisboa receber o prêmio. / Paulo começou a falar em voz alta.
Pedimos silêncio a todos. Pouco a pouco, a praça central se esvaziava.
Esta música foi dedicada a ele. / Os romeiros chegaram a Bahia.
Bateram a porta fui atender. / O carro entrou a direita da rua.
Todos a aplaudiram. / Escreve a redação a tinta.
3. (UF-RS) Disse ..... ela que não insistisse em amar ..... quem não ..... queria.
a) a - a - a d) à - à - à
b) a - a - à e) a - à - à
c) à - a - a
4. (UF-RS) Quanto ..... suas exigências, recuso-me ..... levá-las ..... sério.
a) às - à - a d) à - a - à
b) a - a - a e) as - a - a
c) as - à - à
5. (UC-BA) Já estavam ..... poucos metros da clareira, ..... qual foram ter por um atalho aberto ..... foice.
a) à - à – a d) à - a - à
b) a - à - a e) à - à - à
c) a - a - à
6. (UC-BA) Afeito ..... solidão, esquivava-se ..... comparecer ..... comemorações sociais.
a) à - a - a d) a - à - a
b) à - à - a e) a - a - à
c) à - a - à
7. (TTN) Preencha as lacunas da frase abaixo e assinale a alternativa correta:
"Comunicamos ..... Vossa Senhoria que encaminhamos ..... petição anexa ..... Divisão de Fiscalização que está apta ..... prestar ..... informações solicitadas."
a) a, a, à, a, as d) à, à, a, à, às
b) à, a, à, a, às e) à, a, à, à, as
c) a, à, a, à, as
8. (UF-RS) Somente ..... longo prazo será possível ajustar-se esse mecanismo ..... finalidade ..... que se destina.
a) a - à - a d) à - a - a
b) à - a - à e) à - à - a
c) à - à - à
9. (UF-RS) Entregue a carta ..... homem ..... que você se referiu ..... tempos.
a) aquele - à - á d) àquele - à - à
b) àquele - à - há e) àquele - a - há
c) aquele - a - a
10. (BB) Há crase:
a) Responda a todas as perguntas.
b) Avise a moça que chegou a encomenda.
c) Volte sempre a esta casa.
d) Dirija-se a qualquer caixa.
e) Entregue o pedido a alguém na portaria.
11. (CARLOS CHAGAS-BA) A casa fica ..... direita de quem sobe a rua, ..... duas quadras da avenida do Cortorno.
a) à - há d) à - a
b) a - à e) à - à
c) a - há
12. (CARLOS CHAGAS-BA) Não nos víamos ..... tanto tempo, que ..... primeira vista não ..... reconheci.
a) a - à - a d) há - à - a
b) a - à - há e) a - a - a
c) há - a - há
13. (SANTA CASA) Aconselhei-o ..... que, daí ..... pouco, assistissse .... novela.
a) a - à - a d) à - à - a
b) a - a - à e) à - a - à
c) a - a - a
14. (CESESP-PE) Observe as alternativas e assinale a que não contiver erro em relação à crase:
a) Rabiscava todos os seus textos à lápis para depois escrevê-los à máquina.
b) Sem dúvida que, com novos óculos, ele veria a distância do perigo, aquela hora do dia.
c) Referia-se com ternura ao menino, afeto às meninas e, com respeito, a várias pessoas menos íntimas.
d) Àquela distância, os carros só poderiam bater; não obedeceram as regras do trânsito.
e) Fui à Maceió provar um sururu à região.
15. (FUVEST) ....... noite, todos os operários voltaram ....... fábrica e só deixaram o serviço ....... uma hora da manhã.
a) Há, à, à d) À, a, há
b) A, a, a e) A, à, a
c) À, à, à
16. (CESCEM) Garanto ....... você que compete ....... ela, pelo menos ....... meu ver, tomar as providências para resolver o caso.
a) a, a, a d) a, à, a
b) à, à, a e) à, a à
c) a, à, à
17. (CESCEM) Sentou ....... máquina e pôs-se ....... reescrever uma ....... uma as páginas do relatório.
a) a - a - à d) à - à - à
b) a - à - a e) à - à - a
c) à - a - a
18. (MACK) Assinale a alternativa que completa corretamente as lacunas no seguinte período: "Agradeço ....... Vossa Senhoria ....... oportunidade para manifestar minha opinião ....... respeito."
a) à - a - à d) a - a - a
b) à - a - a e) à - à - a
c) a - a - à
19. (SANTA CASA) ....... dias não se conseguem chegar ....... nenhuma das localidades ....... que os socorros se destinam.
a) Há - à - a d) Há - a - a
b) A - a - à e) À - a - à
c) À - à - a
20. (SANTA CASA) Fique ....... vontade; estou ....... seu inteiro dispor para ouvir o que tem ....... dizer.
a) a - à – a d) à - à - à
b) à - a - a e) a - a - à
c) à - à - a
21. (FMU) Assinale a alternativa em que não deve haver o sinal da crase:
a) O sonho de todo astronauta é voltar a Terra.
b) As vezes, as verdades são duras de se ouvir.
c) Enriqueço, a medida que trabalho.
d) Filiei-me a entidade, sem querer.
e) O sonho de todo marinheiro é voltar a terra.
22. (FUVEST) De ..... muito, ele se desinteressou em chegar a ocupar cargo tão importante. ..... coisas mais simples na vida e que valem mais que a posse momentânea de certos postos de relevo ..... que tantos ambiciosos por amor ..... ostentação.
a) a - Há - à - à d) a - Hão - a - à
b) há - As - a - a e) há - A - a - a
c) há - Há - a - à
23. (FGV) ..... tarde, acampadas já ..... horas, as tropas verificaram ..... perdas sofridas.
a) Há - a - às d) Há - à - as
b) À - há - as e) A - há - as
c) À - a - às
24. (BB) Dizer ....... toda gente o que pensava ....... respeito das coisas era sua maior ambição, mas não ....... confessava sequer ....... sua melhor amiga.
a) a, à, a, à d) a, à, à, à
b) à, à, a, a e) à, a, a, a
c) a, a, a, a
25. (BB) A amiga, ....... quem devia tanta atenção, não chegou ....... ouvir os agradecimentos que ....... muito esperava.
a) a, a, a d) à, à, a
b) a, a, há e) à, a, a
c) à, à, há
26. (BB) Estarei ....... frente do prédio, ....... poucos metros daqui; chegue, exatamente ....... uma hora.
a) à, há, à d) à, a, a
b) a, à, à e) à, há, a
c) à, a, à
27. (BB) Dizem que vencer ....... si mesmo é mais do que vencer o mundo; portanto, vençamos, pela prática da virtude, ....... todos os nossos defeitos e atingiremos ....... perfeição.
a) à, a, à d) a, a, a
b) a, a, à e) à, à, à
c) a, à, à
28. (BB) Quando for ....... Bahia, quero visitar ....... igreja do Bonfim e assistir ....... uma missa para dar cumprimento ....... promessa que fiz.
a) a, a, à, à d) à, a, a, à
b) à, à, a, a e) a, a, a, a
c) a, à, a, à
29. (BB) Qual das alternativas completa corretamente os espaços vazios?
"E entre o sono e o medo, ouviu como se fosse de verdade o apito de um trem igual ....... que ouvia em Limoeiro." (José Lins do Rego)
"Habituara-se ....... boa vida, tendo de tudo, regalada." (J. Amado)
"Os adultos são gente crescida que vive sempre dizendo pra gente fazer isso e não fazer ....... ." (M. Fernandes)
a) àquele, aquela, aquilo d) aquele, àquela, aquilo
b) àquele, àquela, àquilo e) aquele, aquela, aquilo
c) àquele, àquela, aquilo
30. (UF SANTA MARIA-RS) Assinale a alternativa que completa, corretamente, as lacunas da frase inicial: Nesta oportunidade, volto ....... referir-me ....... problemas já expostos .......... Vossa Senhoria ....... alguns dias.
a) à, àqueles, a, há d) à, àqueles, a, a
b) a, àqueles, a, há e) a, aqueles, à, há
c) a, aqueles, à, a
31. (FUND. SANTO ANDRÉ-SP) A alternativa que preenche corretamente as lacunas da frase, é: "....... muito tempo, devido ....... condições político-econômicas do país, não é dado ....... população o direito de viver ....... salvo de sobressaltos financeiros", é:
a) a, as, à, à d) há, às, à, à
b) à, às, à, a e) à, as, à, a
c) há, às, à, a
32. (CEFET-PR) O pobre homem fica ....... meditar, ....... tarde, indiferente ........ que acontece ao seu redor.
a) à, a, aquilo d) à, à, aquilo
b) a, a, aquilo e) à, à, àquilo
c) a, à, àquilo
33. (FCL BRAGANÇA PAULISTA) Não me refiro ....... essa peça, mas ....... a que assistimos sábado ....... noite.
a) a, àquela, à d) à, àquela, a
b) a, aquela, a e) à, àquela, à
c) à, aquela, à
34. (FUEL-PR) Fique ....... vontade e confie ....... mim tudo que tem ....... dizer.
a) a, a, à d) à, à ,à
b) à, a, a e) a, à, a
c) à, a, à
35. (ACAFE-SC) Assinale a alternativa que completa a frase: Trouxe ....... mensagem ....... Vossa Senhoria e aguardo ....... resposta, ..... fim de levar ....... pessoa que me enviou.
a) a, a, à, a, a d) a, a, a, a, à
b) a, à, a, à, a e) à, a, a, a, a
c) à, à, à, à, a
36. (PUC-RS) Foi ....... mais de um século que, numa região de escritores, se propôs a maldição do cientista que reduziria o arco-íris ....... simples matéria: era uma ameaça ....... poesia.
a) a, a, à d) a, a, a
b) há, à, a e) há, a, à
c) há, à, à
37. (FUVEST) Assinale a alternativa que preenche adequadamente as lacunas do texto: "Chegar cedo ..... repartição. Lá ..... de estar outra vez o Horácio conversando ..... uma das portas com Clementino."
a) à - há - a d) à - a - a
b) à - há - à e) a - a - à
c) a - há - a
38. (FUVEST) O progresso chegou inesperadamente ....... subúrbio. Daqui ....... poucos anos, nenhum dos seus moradores se lembrará mais das casinhas que, ....... tão pouco tempo, marcavam a paisagem familiar.
a) aquele, a ,a d) àquele, a, há
b) àquele, à, há e) aquele, à, há
c) àquele, à, à
39. (FUVEST) Diga ....... elas que estejam daqui ....... pouco ....... porta da biblioteca.
a) à, há, a d) à, a, a
b) a, há, a e) a, a, à
T.D. Crase – 2ª parte
40. (FUVEST) Assinale a frase gramaticalmente correta:
a) O papa caminhava a passo firme.
b) Dirigiu-se ao tribunal disposto à falar ao juiz.
c) Chegou à noite, precisamente as 10 horas.
d) Esta é a casa à qual me referi ontem às pressas.
e) Ora aspirava a isto, ora aquilo, ora a nada.
41. (UM-SP)
I - Em relação a renda familiar, o emprego intensivo de mão-de-obra não é a melhor solução.
II - Desde a última década, sinistros presságios atormentavam-lhe a mente.
III - Os investidores americanos, habituados à lentidão do ritmo inflacionário, conseguem acumular fortuna. De acordo com o emprego adequado da crase, deduz-se que:
a) todos os períodos estão corretos
b) nenhum dos três períodos estão corretos
c) estão corretos os períodos I e II
d) estão corretos os períodos II e III
e) somente o período III está correto
42. (UM-SP) Marque o período em que o uso da crase é permitido:
a) Enviei à Roma suas fotografias.
b) Foi à Lapa para inaugurar a gráfica.
c) Alô, franceses, chegamos à Paris.
d) Viajou à Londres, a fim de rever antigo amor.
e) Referimo-nos à Niterói, em nossa excursão pelo interior.
43. (FESP) Assinale a alternativa que completa a frase: "Após ....... reunião, todos foram ....... sala, para assistir ....... chegada dos hóspedes".
a) a, à, a d) à, a, a
b) à, à, à e) a, a, a
c) a, à, à
44. (FESP) Refiro-me ....... atitudes de adultos que, na verdade, levam as moças ....... rebeldia insensata e ....... uma fuga insensata.
a) às, à, à d) à, a, a
b) as, à, à e) à, a, à
c) às, à, a
45. (FCMSC-SP) Dê ciência ....... todos de que não mais se atenderá ....... pedidos que não forem dirigidos ....... diretoria.
a) a, a, a d) à, à, a
b) a, à, a e) à, a, à
c) a, a, à
46. (FCMSC-SP) Estamos ....... poucas horas da cidade ....... que vieram ter, ....... tempos, nossos avós.
a) a, a, há d) à, a, a
b) há, a, a e) a, à, há
c) há, à, há
47. (FCMSC-SP) Assinale a sentença onde a crase foi empregada corretamente:
a) Não se esqueça de chegar à casa cedo.
b) Prefira isto aquilo, já que ao se fazer o bem não se olha à quem.
c) Já que pagaste àquelas dívidas, à que situação aspiras?
d) Chegaram até a região marcada e daí avançaram até à praia.
e) Suas previsões não deixaram de ter razão, pois à uma hora da madrugada é um perigo andar à pé, sozinho.
48. (UF-PR) Quais as formas que completam, pela ordem, as lacunas das frases seguintes? Daqui ..... pouco vai começar o exame; Compareci ..... cerimônia de posse do novo governador; Não tendo podido ir ..... faculdade hoje, prometo assistir ..... todas as aulas amanhã.
a) à, a, a, à d) a, na, à, à
b) há, na, à, a e) a, à, à, a
c) a, há, na, à
49. (ETF-SP) Não é mais possível, ..... esta altura, descobrir ..... que se deve a falha, nem cabe atribuir culpa ..... ninguém.
a) a - a - a d) à - à - à
b) a - à - a e) à - a - à
c) à - à - a
50. (BB) Quanto à crase: 1. Feche à porta 2. à chave e 3. volte à trabalhar
4. Informe à todas 5. que iremos à Brasília
a) corretos os segmentos 1 e 2 d) todos estão corretos
b) corretos os segmentos 3 e 4 e) todos estão incorretos
c) corretos os segmentos 2 e 5
51. (BB) Opção que completa corretamente a frase: Daqui ....... dois dias retornarei ....... Belém.
a) há, a d) há, à
b) à, à e) a, a
c) à, a
52. (BB) Opção que preenche corretamente as lacunas: O gerente dirigiu-se ....... sua sala e pôs-se ....... falar ....... todas as pessoas convocadas.
a) à, à, à d) a, a, à
b) a, à, à e) à, a, à
c) à, a, a
53. (BB) Forma incorreta:
a) Partirei daqui à uma hora.
b) O teste visa à verificar a qualidade do produto.
c) Ele vive à margem da comunidade.
d) O funcionário foi chamado à responsabilidade.
e) Estou à procura de um ideal.
54. (BANESPA) Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas do texto ao lado: "Recorreu ....... irmã e ....... ela se apegou como ....... uma tábua de salvação."
a) à - à - a d) à - à - à
b) à - a - à e) à - a - a
c) a - a - a
55. (ESAF) Assinale a frase em que o acento indicativo de crase foi empregado incorretamente:
a) Ao voltar das férias, devolverei tudo à Vossa Senhoria.
b) O candidato falou às classes trabalhadoras.
c) Fiquei à espera de meus amigos.
d) Sua maneira de falar é semelhante à de Paulo.
e) Você só poderá ser atendido às 9 horas.
56. (CARLOS CHAGAS) O fenômeno ....... que aludi é visível ....... noite e ....... olho nu.
a) a - a - a d) à - a - à
b) a - à - à e) à - à - a
c) a - à - a
57. (FMU) Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas da frase: ..... anos, ..... ecologia alerta ..... quem se interessar, que, ..... vezes, ..... ganância é um risco para a cidade.
a) A - a - à - há - às d) Há - a - à - as - à
b) Há - a - a - às - a e) A - há - à - as - a
c) A - a - à - as - a
58. (CARLOS CHAGAS) Já estavam ....... poucos metros da clareira ....... qual foram por um atalho aberto ....... foice.
a) à - à - a d) à - a - à
b) a - à - a e) à - à - à
c) a - a - à
59. (FUND. LUSÍADA) Assinale a alternativa que completa corretamente o período: ....... noite estava clara e os namorados foram ....... praia ver a chegada dos pescadores que voltavam ....... terra.
a) À - à - a d) À - a - à
b) A - à - à e) A - à - a
c) A - a - à
60. (FAAP) Assinale a alternativa que completa corretamente as lacunas da seguinte frase: Ficaram frente ....... frente, ....... se olharem, pensando no que dizer uma ....... outra.
a) à, à, a d) à, a, a
b) a, à, a e) à, a, à
c) a, a, a
61. (FUVEST) "Daqui ..... vinte quilômetros, o viajante encontrará, logo ..... entrada do grande bosque, uma estátua que ..... séculos foi erigida em homenagem ..... deusa da floresta."
a) a - à - há - à d) a - à - à - à
b) há - a - à - a e) há - a - há - a
c) à - há - à - à
62. (FUVEST) Assinale a frase que pode ser completada por Há - a - à, nessa ordem:
a) ....... tempos não ....... via, mas sempre estive ....... espera de um encontro.
b) Aqui ....... beira do rio, ....... muitos anos, existiu ....... casa-grande do engenho.
c) Em resposta ....... essa solicitação, só posso dizer que não ....... vaga ........ disposição.
d) Fiz ver, ....... quem de direito, que não ....... possibilidades de atender ....... solicitação.
e) ....... esperança de obtermos, ....... custa de muito empenho, ....... vaga de servente.
63. (TFC) Marque o item que se completa de forma correta com a seqüência seguinte - há; à(s):
a) ..... algum tempo, a tecnologia revolucionária em áreas que vão da cirurgia plástica ..... armas nucleares.
b) O raio laser se revela ..... altura de um bisturi de alta precisão ..... anos.
c) ..... quem afirme que ..... áreas da medicina em que o uso do raio laser é imprescindível.
d) ..... A novidade surgiu na França onde o laser está sendo usado na restauração da Catedral de Amiens, recuperando vestígios das cores aplicadas ..... sete séculos.
e) Debaixo da fuligem que conferiu um tom acinzentalado ..... igreja, o laser revelou uma gama de dourados, azuis e vermelhos existentes ..... épocas da feitura de obras góticas.
(Adap. de Veja, 10/03/93)
64. (FUVEST) Na frase: "tende a satisfazer as exigências do mercado", substituindo-se satisfazer por satisfação, tem-se a forma correta:
a) tende à satisfação as exigências do mercado.
b) tende a satisfação das exigências do mercado.
c) tende a satisfação das exigências ao mercado.
d) tende a satisfação às exigências do mercado.
e) tende à satisfação das exigências do mercado.
65. (TRE-SP) Disposto ..... recomeçar, o auxiliar judiciário referiu-se ..... palavras de apoio que ouviu, ..... entrada do serviço.
a) à - as - a d) a - às - à
b) à - às - a e) a - as - à
c) a - as - a
66. (TRE-SP) Ele aprendeu ...... tempo que a obediência ...... leis dignifica o cidadão devotado ...... pátria.
a) há - as - a d) à - às - à
b) a - às - a e) há - às - à
c) há - as - à
67. (TRE-SP) Daqui ..... pouco, ele chegará ..... este Tribunal para encaminhar suas reclamações ..... quem de direito.
a) a - a - à d) a - a - a
b) à - à - à e) à - a - a
c) a - à - a
68. (TRE-SP) Isso se refere ..... fatos que ocorreram ..... muito tempo e, como tal, não vêm mais ..... lembrança de ninguém.
a) a - à - a d) à - há - à
b) a - há - à e) à - à - a
c) à - à - à
69. (TRE-MT) O uso do acento grave (indicativo de crase ou não) está incorreto em :
a) Primeiro vou à feira, depois é que vou trabalhar.
b) Às vezes não podemos fazer o que nos foi ordenado.
c) Não devemos fazer referências àqueles casos.
d) Sairemos às cinco da manhã.
e) Isto não seria útil à ela.
70. (TRE-MG) O acento grave, indicador de crase, está empregado incorretamente em:
a) Tal lei se aplica, necessariamente, à mulheres de índole violenta.
b) As novelas, às quais assisti, problematizam a questão da droga.
c) Entregou as chaves da loja àquele senhor que nos desacatou na praça.
d) O delegado disse ao prefeito e aos vereadores que estava à procura dos foragidos.
e) O bom atendimento às pessoas pobres deve ser prioridade da nova administração.
71. (TRE-RJ) "a tensão social poderia levar-nos a duas extremas posições." Das expressões que substituem a sublinhada na passagem acima, aquela cujo a pode ter o acento grave indicativo de crase é:
a) a mesma posição d) a qualquer posição
b) a certa posição e) a posições distintas
c) a alguma posição
72. (TRE-RO)
I - O povo da região vai votar à pé ou à cavalo;
II - Pedimos à V. Excelência que não se esqueça do povão, que não o elegeu à toa.
III - O cabo eleitoral dirigiu-se à ela e ensinou-lhe a copiar o nome.
IV - Permaneceram reunidos à noite, face a face, a conversar. A ocorrência de crase está corretamente indicada:
a) somente na I d) somente na IV
b) somente na II e) somente na II e na IV
c) somente na III
73. (TRE-MT) A única frase em que o a sublinhado deveria ser grafado com o acento grave indicativo de crase é:
a) Estou pronto a discutir o novo projeto.
b) Pelé fará uma viagem a Roma.
c) O presidente não fez alusão a qualquer ministro.
d) Vamos a sala vizinha, disse o ministro.
e) Preferiu morrer a entregar-se.
74. (TRE-RJ) O "a" (sublinhado) que deverá levar o acento grave indicativo de crase está na seguinte alternativa:
a) Eles entregam "pizza" a domicílio.
b) O menino não quis ir a casa dos tios.
c) A encomenda foi entregue a uma pessoa estranha.
d) As moças começaram a gritar logo no início do filme.
e) O fiscal não se referia a candidatas, mas a candidatos.
75. (TRE-MG) O uso da crase está incorreto em:
a) Chegaram a argumentar cara à cara que não aceitariam sugestões.
b) Já demos nossa contribuição à associação beneficente do bairro.
c) À custa de sacrifício, os estudantes conseguiram ser aprovados.
d) Transmita àqueles jovens nossa mensagem de esperança no futuro.
e) Esta construção é igual à que meu primo construiu na periferia.
76. (ETF-SP) Assinalar a alternativa em que está correto o uso da crase:
a) Tenho um carro à álcool e outro à gasolina.
b) Os turistas ficaram um bom tempo à contemplar a praia.
c) Escreva sempre à tinta, nunca a lápis.
d) Andávamos às escuras, à procura dos índios.
e) Aquela expedição esteve à andar pelas selvas durante muito tempo.
77. (ETF-SP) Assinalar a alternativa que completa corretamente as lacunas em: "..... duas horas estamos ..... espera de sermos apresentados ..... aquele escritor".
a) a, à, a d) a, há, a
b) há, à, a e) há, a, a
c) há, à, à
78. (TTN) Assinale o item que preenche corretamente as lacunas da frase:"Em virtude de investigações psicológicas ....... que me referi, nota-se crescente aceitação de que é preciso pôr termo ....... indulgência e ......... inação com que temos assistido ....... escalada da pornoviolência." (S. Pfrom)
a) à, a, à, a d) à, à, a, a
b) a, à, à, à e) a, à, a, à
c) a, a, a, à
79. (TTN) Marque a letra cuja seqüência preenche corretamente, pela ordem de aparecimento, as lacunas abaixo: O exame das propostas da reforma fiscal, ....... primeira abordagem, leva ....... conclusão de que ....... carga tributária continuará ....... incidir mais sobre salários e menos sobre lucros e grandes fortunas.
a) à - à - a - a d) a - à - a - a
b) à - a - à - a e) a - a - à - a
c) a - a - a - à
80. (AFTN) Assinale a frase na qual a palavra não deve receber o acento indicativo de crase:
a) Os apelos a internacionalização da Amazônia ganham contornos de avalanche.
b) Toda manhã a esta hora, depois de ler o jornal do dia, fico deprimida.
c) Aquela hora morta da madrugada todos estavam recolhidos ao leito.
d) Muitas das reivindicações dos sindicatos trabalhistas, são semelhantes as da classe patronal.
e) Os petroleiros apresentaram ao Ministro uma pauta de reivindicações igual a que haviam divulgado no ano anterior.

GABARITO CRASE

1 - B 18 - D 35 - D 52 - C 69 - E

2 - D 19 - D 36 - E 53 - B 70 - A

3 - A 20 - B 37 - A 54 - E 71 - A

4 - B 21 - E 38 - D 55 - A 72 - D

5 - B 22 - C 39 - E 56 - C 73 - D

6 - A 23 - B 40 - D 57 - B 74 - B

7 - A 24 - C 41 - D 58 - B 75 - A

8 - A 25 - B 42 - B 59 - E 76 - D

9 - E 26 - C 43 - C 60 - C 77 - C

10 - B 27 - D 44 - C 61 - A 78 - B

11 - D 28 - D 45 - C 62 - A 79 - A

12 - D 29 - C 46 - A 63 - A 80 - B

13 - B 30 - B 47 - D 64 - E

14 - C 31 - C 48 - E 65 - D

15 - C 32 - C 49 - A 66 - E

16 - A 33 - A 50 - E 67 - D

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Regência e Concordância e Colocação

GABARITO: 01 – A / 02 – C / 03 – C / 04 – D / 05 – A / 06 - B
Texto para as questões de 01 a 06
A Quinta História

Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranqüila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: “é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de...” — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? - como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? - no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem “adeus”, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Esta casa foi dedetizada”.

A quinta história chama-se “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”. Começa assim: queixei-me de baratas...

(Clarice Lispecto, in A Felicidade Clandestina)
01. Na oração seguinte, “A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas”, a colocação pronominal só não se se justifica pelo mesmo proceso que o do seguinte item:
a) “Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”.”
b) “ Deu-me a receita”
c) “Uma senhora ouviu-me a queixa.”
d) “e chama-se “O Assassinato”.

02. A concordância da frase: “Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa.” Se justifica pela seguinte regra:
a) A conjunção alternativa ou só aceita uma única alternativa, portanto, há apenas um núcleo do sujeito a concordar com o verbo
b) No caso em questão, a copnjunção alternativa ou se refere a apenas um núcleo, portanto assim prevalece o verbo no singular.
c) A expressão “Um ou outro” solicita que se faça a concordância com o adjunto adnominal, que, no caso, é “antena”.
d) A expressão “uma ou outra” não é importante, sendo totalmente invalidada, portanto.
03. Na frase: Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. Temos a existência da crase por se tratar:
a) De uma expressão idiomática
b) Da contração entre o artigo feminino definido singular A e a preposição A , simplesmente
c) O nome prazer solicita a presença posterior da preposição A, enquanto que o nome visão , o do artigo A
d) N.D.A

04. Na oração: “... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam”, o verbo cantar se encontra no plural porque:
a) São dois os núcleos do sujeito.
b) O sujeito foi mencionado no período anterior, sendo, portanto, um sujeito desinencial
c) É sujeito indeterminado
d) Concorda com o núcleo do sujeito

05. Releia a oração: “por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila indiana.” . Neste exemplo, o verbo renovar aceita a mesóclise por:
a) Estar conjugado no futuro do indicativo
b) A preposição por repele a pronome oblíquo átono
c) O pronome relativo onde repele o pronome oblíquo átono
d) N.D.A

06. O Seguinte período : “E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas.” Poderia ser reescrito com o uso da crase – corretamente – no seguinte item:
a) E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo à meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas.
b) E à escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas.
c) E na escuridão da aurora, um arroxeado à distancia de tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas.
d) E na escuridão à aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas.

Regência e Crase

Gabarito: 01 – D / 02 – B / 03 – C / 04 – D / 05 – E / 06 – A / 07 – A / 08 – A / 09 – E / 10 - B


1. (IBGE) Assinale a opção que apresenta a regência verbal incorreta, de acordo com a norma culta da língua:
a) Os sertanejos aspiram a uma vida mais confortável.
b) Obedeceu rigorosamente ao horário de trabalho do corte de cana.
c) O rapaz presenciou o trabalho dos canavieiros.
d) O fazendeiro agrediu-lhe sem necessidade.
e) Ao assinar o contrato, o usineiro visou, apenas, ao lucro pretendido.

2. (IBGE) Assinale a opção que contém os pronomes relativos, regidos ou não de preposição, que completam corretamente as frase abaixo: Os navios negreiros, ....... donos eram traficantes, foram revistados. Ninguém conhecia o traficante ....... o fazendeiro negociava.
a) nos quais / que
b) cujos / com quem
c) que / cujo
d) de cujos / com quem
e) cujos / de quem

3. (IBGE) Assinale a opção em que as duas frases se completam corretamente com o pronome lhe:
a) Não ..... amo mais. / O filho não ..... obedecia.
b) Espero-..... há anos. / Eu já ..... conheço bem.
c) Nós ..... queremos muito bem. / Nunca ..... perdoarei, João.
d) Ainda não ..... encontrei trabalhando, rapaz. / Desejou-..... felicidades.
e) Sempre ..... vejo no mesmo lugar. / Chamou-..... de tolo.

4. (IBGE) Assinale a opção em que todos os adjetivos devem ser seguidos pela mesma preposição:
a) ávido / bom / inconseqüente
b) indigno / odioso / perito
c) leal / limpo / oneroso
d) orgulhoso / rico / sedento
e) oposto / pálido / sábio

5 (BB) Regência imprópria:
a) Não o via desde o ano passado.
b) Fomos à cidade pela manhã.
c) Informou ao cliente que o aviso chegara.
d) Respondeu à carta no mesmo dia.
e) Avisamos-lhe de que o cheque foi pago.

6. (UC-BA) Afeito ..... solidão, esquivava-se ..... comparecer ..... comemorações sociais.
a) à - a - a
b) à - à - a
c) à - a – à
d) a - à - a
e) a - a - à


7. (TTN) Preencha as lacunas da frase abaixo e assinale a alternativa correta:
"Comunicamos ..... Vossa Senhoria que encaminhamos ..... petição anexa ..... Divisão de Fiscalização que está apta ..... prestar ..... informações solicitadas."
a) a, a, à, a, as
b) à, a, à, a, às
c) a, à, a, à, as
d) à, à, a, à, às
e) à, a, à, à, as

8. (UF-RS) Somente ..... longo prazo será possível ajustar-se esse mecanismo ..... finalidade ..... que se destina.
a) a - à - a
b) à - a - à
c) à - à - à
d) à - a - a
e) à - à - a

9. (UF-RS) Entregue a carta ..... homem ..... que você se referiu ..... tempos.
a) aquele - à - á
b) àquele - à - há
c) aquele - a - a
d) àquele - à – à
e) àquele - a - há

10. (BB) Há crase:
a) Responda a todas as perguntas.
b) Avise a moça que chegou a encomenda.
c) Volte sempre a esta casa.
d) Dirija-se a qualquer caixa.
e) Entregue o pedido a alguém na portaria.

Classes de Palavras Invariáveis

Gabarito: 01 - E / 02 – D / 03 – E/ 04- B/ 05 – B / 06 – C / 07 – D / 08 – A / 09 – B / 10 – B


1. (U-BRASÍLIA) Assinale o item que só contenha prposições:
a) durante, entre, sobre d) em, caso, após
b) com, sob, depois e) após, sobre, acima
c) para, atrás, por

2. (EPCAR) Aponte a alternativa em que a palavra em negrito é conjunção explicativa:
a) Como estivesse cansado, não foi trabalhar.
b) Assim que fores ao Rio, não te esqueças de avisar-me.
c) Retirou-se antes, já que assim o quis.
d) Não se aborreça, que estamos aqui para ouvi-lo.
e) Não compareceu, porque não foi avisado.

3. (UC-MG) Em "Orai porque não entreis em tentação", o valor da conjunção do período é de:
a) causa d) explicação
b) condição e) finalidade
c) conformidade

4. (UE PONTA GROSSA-PR) As formas que traduzem vivamente os sentimentos súbitos, espontâneos e instintivos dos falantes são denominados:
a) conjunções d) locuções
b) interjeições e) coordenações
c) preposições

5. (UNB-DF) Assinale a frase em que "meio" funciona como advérbio:
a) Só quero meio quilo. d) Parou no meio da rua.
b) Achei-o meio triste. e) Comprou um metro e meio.
c) Descobri o meio de acertar.

6. (FECAP) Classifique as palavras como nas construções seguintes, numerando, convenientemente, os parênteses:
1) preposição
2) conj. subord. causal
3) conj. subord. conformativa
4) conj. coord. aditiva
5) adv. interrogativo de modo
( ) Perguntamos como chegaste aqui.
( ) Percorrera as salas como eu mandara.
( ) Tinha-o como amigo.
( ) Como estivesse frio, fiquei em casa.
( ) Tanto ele como o irmão são meus amigos.
a) 2 - 4 - 5 - 3 – 1 d) 3 - 1 - 2 - 4 - 5
b) 4 - 5 - 3 - 1 – 2 e) 1 - 2 - 4 - 5 - 3
c) 5 - 3 - 1 - 2 - 4

Textos para as questões 07 a 09

1 - Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
2 - Soneto do Amor Total
Vinicius de Moraes
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.


7. Apresenta incorreta análise da conjunção ou da locução conjuntiva no seguinte item:
a) “E em seu louvor hei de espalhar meu canto” – coordenativa aditiva
b) “quando mais tarde me procure” – coordenativa temporal
c) “Mas que seja infinito enquanto dure” – coordenativa adversativa
d) “Amo-te como um bicho, simplesmente” – coordenativa comparativa

8. Está incorreta a classificação adverbial do seguinte item:
a)” De tudo ao meu amor serei atento / Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto” – locução adverbial de causa
b) “Que não seja imortal” – advérbio de negação
c) “Amo-te tanto, meu amor... não cante” – advérbio de intensidade
d) “E de te amar assim, muito e amiúde” – advérbios de modo

9. Não é preposição ou locução prepositiva o termo sublinhado destacado do item:
a) “Que mesmo em face do maior encanto”
b) “E assim, quando mais tarde me procure”
c) “O humano coração com mais verdade...”
d) “Amo-te afim, de um calmo amor prestante”

10. Das expressões abaixo, está errônea a classificação da interjeição no item:
a) Nossa! Como esta prova está fácil! > admiração
b) Arre! Esta avaliação está bem pequena! > alegria
c) A prova, Gleylson?!... Xi... eu as esquecera completamente! > desculpas
d) Mãe eterna do céu! Proteja esses alunos na hora desta prova! > invocação

domingo, 9 de novembro de 2008

Jardim Selvagem , de Lygioa FAgundes Telles

O jardim selvagem (Conto da obra Antes do baile verde), de Lygia Fagundes Telles

Este conto está inserido na obra Antes do baile verde, de Lygia Fagundes Telles.



Neste conto os acontecimentos da abrangem cerca de três meses e meio a quatro meses, do casamento de Ed e Daniela até o desfecho.



Em O Jardim Selvagem, de 1965, a personagem que atua como narrador é uma criança, e será sob o seu ponto de vista que o leitor verá os temas adultos – a relação matrimonial, o preconceito, a morte – serem analisados.



O título do conto apresenta uma expressão interessante e ambígua. Um jardim geralmente é um ambiente doméstico, formado por uma coleção de plantas cultivadas e, portanto, conhecidas. Em uma análise inicial, não é um espaço que desencadeie grandes emoções ou que desperte surpresas. Supõe-se que as eventuais surpresas que poderiam surgir num jardim – o nascimento de uma planta indesejada ou o aparecimento de pragas, como formigas ou lagartas – devam ser controladas pela presença assídua de um jardineiro atento.



Por outro lado, um ambiente selvagem pode ser agreste, ermo, bravio, sem civilização. De qualquer forma, o adjetivo traz a idéia de algo que ainda não foi domado, domesticado, ou que é difícil de o ser. Assim, provavelmente, um jardim selvagem deve encerrar uma mescla desses dois conceitos – talvez designe um ambiente que possui elementos conhecidos, mas que, ao mesmo tempo, pode conter mistérios e perigos inimagináveis.



Na primeira linha da narrativa, Ed, uma das personagens, refere-se a outra, Daniela, comparando-a a “um jardim selvagem”. Ainda não se tem nenhuma informação sobre as personagens, mas, com o uso dessa expressão para designar Daniela, a primeira “isca” foi lançada ao leitor. A intenção do narrador, provavelmente, foi conferir uma aura de mistério à personagem feminina e, com isso, despertar a curiosidade de quem está lendo, fazendo com que se engaje no pacto ficcional.



A visita de Ed à Pombinha dá início à narrativa. O leitor só fica sabendo o motivo dessa visita – a comunicação do casamento – posteriormente, bem como o tipo de relação entre as personagens mencionadas nesse primeiro momento (Ed, Daniela, Pombinha e a menina, até então sem nome). Ao adotar a estratégia de principiar o conto utilizando o discurso direto – ou seja, com a fala de uma das personagens – o narrador, aparentemente, tem a intenção de inserir o leitor no centro da ação, proporcionando-lhe uma impressão de simultaneidade e de presentividade.



Nas duas frases que emite, Ed emprega um discurso avaliativo em relação a outra personagem, Daniela. Para ele, Daniela é “como um jardim selvagem” (p. 67), expressão que dá título ao conto, conforme já comentado. Essa atitude apreciativa de Ed – instrumento de elaboração da subjetividade da personagem –, não fornece ao leitor, entretanto, elementos para inferir sobre a personalidade ou qualquer característica de Daniela. Assim, provavelmente, o efeito que se buscou conseguir foi o de despertar a curiosidade do leitor, de prender-lhe a atenção. Após o comentário feito por Ed, há um trecho narrativizado, no qual é introduzida outra personagem, Tia Pombinha, a interlocutora de Ed. É também nesse momento que se torna possível reconhecer, por meio dos pronomes e dos verbos em primeira pessoa, que são empregados, que a história terá um narrador do tipo autodiegético: “Passei a mão na tampa da caixa (...)”, “eu já sabia”, “Foi o que lhe perguntei”, “Ele me olhou” (p. 67) e, ainda, “eu disse”, “aproveitei a entrada de Tia Pombinha”, “eu já tinha visto” (p. 68).



Ainda nessa primeira parte do conto, a visita de Ed à Pombinha, é empregado o discurso iterativo para demonstrar situações que sempre se repetem – “Era a segunda ou terceira vez que a presenteava com uma caixa igual...” (p. 67), “A tal caixa estava mesmo fechada, tão cedo não seria aberta” (p. 68), “E o licor de cacau era tão ruim que eu já tinha visto uma visita guardá-lo na boca para depois cuspir” (p. 68). Em contraste com a monotonia das atitudes já presenciadas pela menina, e, por isso, enfadonhas, existe a novidade, simbolizada pela informação que Ed disponibiliza sobre Daniela. A expressão desconhecida, utilizada pelo tio, aguça a curiosidade da criança, personagem e narradora: “Mas, e um jardim selvagem? O que era um jardim selvagem?” (p. 67). Provavelmente, o narrador procura, dessa maneira, desencadear dois efeitos no leitor: instigar sua curiosidade, mais uma vez, e, além disso, proporcionar uma certa identificação com a menina, que, nesse momento, também está curiosa. Se conseguir alcançar esses (supostos) objetivos, o desvendar do mistério poderá ser um ato realizado simultaneamente pelos dois, ou seja, pelo leitor e pela personagem.



A segunda parte do conto inicia-se com uma locução adverbial – “mais tarde” (p. 68), e consiste no diálogo entre Ducha e Pombinha.



A conversa ocorre no quarto de Ducha, no momento em que a menina se prepara para dormir. Com relação à velocidade da narrativa – relação entre a duração da história e a extensão do texto –, esta é a parte mais lenta. Apesar de podermos supor que a duração do diálogo, na diegese, deve ter sido de alguns minutos ou, no máximo, de uma ou duas horas, este é o trecho de dimensão máxima, com cerca de três páginas. É no transcorrer dessa conversa que o leitor recebe a maioria das informações a respeito das personagens. Por meio da cena em que se desenvolve o diálogo, fica-se sabendo que Ed e Daniela se casaram, “há mais de uma semana” (p. 68). Se, por um lado, essa breve analepse esclarece a relação existente entre Ed e Daniela, bem como o motivo que o levou a visitar Pombinha, por outro, entretanto, lança um novo componente para manter um clima de suspense na história: por que Ed não convidou a família para o casamento? Pombinha conta para Ducha que sonhara com Ed, “ainda na noite passada” (p. 68) e que ficara nervosa por “ter sonhado com dentes nessa mesma noite” (p. 68). E Pombinha completa: “Você sabe, não é nada bom sonhar com dentes” (p. 68). Dessa maneira, o trecho desempenha uma função de índice de antecipação de desfecho – o mau pressentimento de Pombinha em relação a Ed exerce o papel de uma prolepse. Entretanto, o comentário do narrador, empregando o discurso iterativo, “Os sonhos de tia Pombinha eram todos horríveis” (p. 68), aparentemente tenta desacreditar a antecipação – o narrador parece querer confundir o leitor, fazê-lo acreditar que a prolepse é uma pista falsa. Também a ironia do narrador – ao dizer que “tratar deles” (dos dentes) “é pior ainda” (p. 68), assemelha-se a um descrédito à opinião de Pombinha. Ainda durante o diálogo, Pombinha faz referências ao passado, lembra-se de Ed quando menino. São dois trechos de analepse externa, inseridos na narrativa, por meio da utilização das recordações de Pombinha. No primeiro, o leitor recebe a informação, pelo pronome possessivo empregado, que Ed e Pombinha são irmãos: “Fui a mãezinha dele quando a nossa mãe morreu” (p. 68).



O segundo segmento, fornece dados a respeito da personalidade de Ed e permite, ao narrador e, conseqüentemente, ao leitor – estabelecer uma relação dialética com o presente da narrativa. “Ele me abraçou e me olhou do mesmo jeito que me olhou agora, querendo confessar que estava com medo. Mas sem coragem de confessar” (p. 69).



Pombinha é apenas uma personagem e, portanto, tem um conhecimento limitado da situação. Entretanto, o sonho que teve, o olhar do irmão, a falta de informações sobre a nova cunhada, “E que moça é essa, Cristo-Rei? Ninguém sabe quem ela é...” (p. 68), levam-na a sentir-se apreensiva e a conjeturar sobre o verdadeiro estado de espírito do irmão. As incertezas da personagem a respeito de Ed são demonstradas pela utilização do discurso modalizante: “Ele parece feliz”, “Era como se quisesse me dizer qualquer coisa e não tivesse coragem”, “Tive a impressão de que estava com medo” (p. 68), “foi como se eu estivesse vendo Ed menino outra vez” (p. 69). O narrador, Ducha, novamente parece querer desacreditar Pombinha perante o leitor. Logo após a analepse que trata do medo que Ed sentia do escuro, quando criança, toma-se conhecimento do que Ducha pensa a respeito da situação, por meio do uso da focalização interna: “Quando minha tia anunciava uma história importante, na certa vinha alguma bobagem sem importância nenhuma.



De resto, tia Pombinha tinha a mania de ver mistério em tudo (...) Não passava um dia sem falar nos tais pressentimentos” (p. 69). O narrador-personagem emprega o discurso avaliativo para expressar sua opinião sobre o que é importante para a tia, e o discurso iterativo para caracterizar os sentimentos de Pombinha em relação ao casamento do irmão, não como algo único, mas sim como um comportamento freqüente da tia, a respeito de qualquer assunto. A seguir, Pombinha dá outros informes a respeito de Daniela, fatos que lhe foram relatados pela cozinheira do casal, enquanto Ducha estava na escola. Além dos gastos excessivos do casal, a empregada relata que “quando estiveram na chácara, nesse último fim de semana, ela” (Daniela) “tomou banho nua debaixo da cascata” (p. 69). O narrador continua a depreciar as preocupações da tia. E, novamente, por meio da focalização interna e do discurso avaliativo, toma-se conhecimento da opinião de Ducha sobre o assunto, aparentemente definitiva: “Tia Pombinha estava era mesmo com ciúme, (...), eu mesma já tinha lido um caso parecido numa revista. Sabia até o nome do complexo, era um complexo de irmão com irmã.” (p. 70). Apesar do menosprezo demonstrado por Ducha, que boceja, dá de ombros, Pombinha continua a falar a respeito de Daniela: “Diz que anda sempre com uma luva na mão direita, não tira nunca a luva dessa mão, nem dentro de casa” (p. 70). Não é mencionado pelo narrador quem contou o fato para Pombinha. Mas, fica explícito, por meio dos advérbios de tempo empregados, que o uso da luva é freqüente e específico – sempre na mesma e única mão, a direita. Ao ouvir isso, Ducha senta-se na cama: “Esse pedaço me interessava” (p. 70). Por que tal informação aguça a curiosidade da menina? Pode ser considerado algo assim tão excêntrico? A seguir, as observações de tia e sobrinha sobre o fato singular:



– Já amanhece com ela. Diz que teve um acidente com essa mão, deve ter ficado algum defeito... – Mas por que não quer que vejam? – Eu é que sei? Como Ed nem tocou nisso, fiquei sem jeito de perguntar, essas coisas não se perguntam. (...) Tia Pombinha ficou falando algum tempo ainda sobre a bondade do irmão, mas eu só pensava naquela nova tia que tomava banho pelada debaixo da cascata. E não tirava a luva da mão direita. (Telles, 1982, p. 70)



Aparentemente, a função da segunda parte do conto é fornecer detalhes a respeito das personagens principais. O narrador utiliza a seguinte estratégia para alcançar esse objetivo: Ed é focalizado por Pombinha, que o descreve como “o meu querido Ed” (p. 68), “sempre foi muito discreto, não é de se abrir com a gente, ele esconde” (p. 69), “deve dar um marido exemplar, desde criança foi muito bonzinho (...) Uma verdadeira pérola...” (p. 70), e afirma ainda que “Ed não é tão rico quanto se pensa” (p. 70). Deve-se levar em consideração que Pombinha e Ed são irmãos. Assim, as informações veiculadas por ela a respeito da personagem masculina contêm um alto grau de afetividade.



Daniela, por sua vez, é focalizada por Ed, que além de compará-la a um jardim selvagem, diz a Pombinha que a esposa é “lindíssima” (p. 69), “mas não é tão jovem assim, parece que tem a idade dele, uns trinta e poucos anos...” (p. 69).



O narrador menciona, ainda, as impressões da cozinheira, empregada de Ed, que conta a Pombinha que Daniela “se veste nos melhores costureiros, só usa perfume francês, toca piano...” (p. 69), e, ainda, que no último final de semana, “tomou banho nua debaixo da cascata” (p. 69). Quem faz a focalização de tia Pombinha é o próprio narrador-personagem. A menina a considera “sovina” (p. 68), não lhe dá muita atenção e até a trata com ironia, como já foi comentado. É realizada, ainda, a caracterização externa de Pombinha: ela choraminga, “fazendo bico” (p. 68), triste porque o irmão não a convidou para o casamento; franze a testa e “seus olhinhos redondos ficaram ainda mais redondos” (p. 69), intrigada, por não conseguir adivinhar que motivo poderia provocar medo em Ed; e ainda, há a descrição das mãos de Pombinha, cujo aspecto aflige Ducha:



Ela abriu nos joelhos as mãos ossudas, de unhas onduladas, cortadas rente. Passei a língua na palma das minhas mãos para umedecê-las. Sempre que olhava para as mãos dela, assim secas como se tivessem lidado com giz, precisava molhar as minhas. (Telles, 1982, p. 70)



As opiniões emitidas por Pombinha a respeito de Ed, por Ed a respeito de Daniela e por Ducha a respeito de Pombinha, são discursos subjetivos, com caráter avaliativo, impregnados das emoções decorrentes das relações afetivas estabelecidas entre essas personagens. Serão informações confiáveis, verdadeiras? Quais as lacunas a serem preenchidas? O que poderá vir a acontecer? Com os elementos fornecidos e por intermédio das focalizações de diferentes personagens, o jogo armado pelo narrador convida o leitor a formular hipóteses sobre o desenrolar da trama. Dessa forma, o leitor acompanha a narrativa com uma sensação de que algo pode acontecer a qualquer momento, o diálogo entre Ducha e tia Pombinha, os pressentimentos desta última, o mistério que envolve Daniela, são estratégias do narrador para gerar este efeito no leitor. Mas, talvez o principal seja o fato do narrador selecionar os componentes mais importantes, direcionar o olhar do leitor para eles: a expressão “Lembrei-me então do que ele dissera: Daniela é como um jardim selvagem” (p. 69), o banho na cascata, “Nua?” (p. 69) e, principalmente, o fato de Daniela nunca tirar “a luva da mão direita” (p. 70).



Entretanto, aparentemente, a situação se altera, na terceira parte do conto. “Numa manhã de sábado” (p. 70), Daniela faz uma visita a Tia Pombinha, enquanto Ducha está na escola. Pombinha fica emocionada, encantada com a cunhada – esquece os pressentimentos anteriores, derruba qualquer barreira que pudesse existir com relação ao casamento do irmão.



Por meio da focalização de Pombinha, o leitor fica sabendo que Daniela é “encantadora” (p. 70), “Tão natural, tão simples e ao mesmo tempo, tão elegante, tão bem cuidada... Foi tão carinhosa comigo!” (p. 70-71), “Um amor de moça!” (p. 71). O discurso avaliativo empregado pela personagem, a quem o narrador cede a voz, nesse momento, demonstra a ótima impressão causada por Daniela. As desconfianças que haviam surgido anteriormente são, agora, deixadas de lado. O único detalhe que ainda provoca estranhamento é o uso da luva naquela única mão – o que leva Pombinha a comentar: “Podia fazer uma plástica... Enfim, deve ter motivos” (p. 71). Pela utilização de um 48 discurso modalizante, Pombinha supõe que alguma razão justifica o uso da luva por Daniela. Entretanto, devido ao conhecimento limitado que possui, por ser apenas uma personagem, não imagina qual possa ser o motivo, nem faz conjeturas a esse respeito. Sente-se tão cativada por Daniela, que isso deixa de ter importância. Como conclui o narrador: “então tudo tinha mudado” (p. 71).



“No mês seguinte” (p. 71) é o marco temporal que dá início à quarta parte da narrativa, na qual se dá a cena entre Ducha e a cozinheira de Ed, que acaba de sair do emprego. O narrador chama a atenção para a importância da conversa, que faz com que Ducha até esqueça “os zeros sucessivos que tivera em Matemática” (p. 71). A mulher relata uma situação que presenciou, na qual Daniela dá um tiro em um cachorro da chácara, Kleber, que estava doente:



Encostou o revólver na orelha e pum! matou assim como se fosse uma brincadeira... Não era para ninguém ver, nem o seu tio, que estava na cidade. Mas eu vi com estes olhos que a terra há de comer, ela pegou o revólver com aquela mão enluvada e atirou no pobrezinho, morreu ali mesmo, sem um gemido... (Telles, 1982, p. 71)



Daniela justifica o ato dizendo que “o Kleber estava sofrendo muito, que a morte para ele era um descanso” (p. 72). Usa a música como metáfora para a vida: “A doença sem remédio era o desafino, o melhor era acabar com o instrumento para não tocar mais desafinado” (p. 72). Novamente, o narrador conduz a atenção do leitor para determinados aspectos do diálogo, desta vez, por meio de perguntas que faz à cozinheira. “Disse isso?” (p. 72), com relação a Daniela afirmar que a morte era um descanso para Kleber; “Mas ela gostava dele?” (p. 72), como para frisar que, apesar da mulher gostar do cachorro, mesmo assim o matara, colocando a razão acima da emoção. A cozinheira relata, ainda, que “Uma noite a mesa do jantar virou inteira” (p. 72). Apesar de Ed ter assumido a responsabilidade pelo acontecido, na opinião da empregada, quem jogou tudo ao chão foi Daniela, provavelmente num acesso de fúria. Mais uma vez o narrador questiona, aparentemente para enfatizar certos aspectos que julga importantes para o desfecho: “Por quê? Por que fez isso?” (p. 72), o que permite que a cozinheira afirme “Quando fica brava... A gente tem vontade até de entrar num buraco. O olho dela, o azul, muda de cor” (p. 72). E, finalizando o interrogatório, Ducha pergunta “Não tira a luva, nunca?” (p. 72), o que é confirmado pela mulher.



Devido à utilização do modo dramático, é passada ao leitor a impressão de que a história está se contando sozinha. O leitor quase que desempenha o papel de uma personagem, escondida atrás da porta da cozinha para ouvir a conversa entre Ducha e a cozinheira.



E acaba sendo a única “testemunha” – apenas o leitor fica sabendo o que Daniela fez com o cachorro, pois nem Conceição, nem Tia Pombinha presenciam o diálogo.



Entretanto, o narrador faz com que se perceba a importância do episódio ao concluir: “Quando tia Pombinha chegou, a mulher já estava se despedindo, o que foi uma sorte” (p. 72).



“Dois meses depois” tem início a quinta parte da narrativa, Daniela telefona para avisar que Ed está muito doente. Ducha leva “o maior susto do mundo” (p. 72) ao saber disso. Pergunta a Pombinha sobre o comportamento de Daniela, ao que a tia responde que ela “tem sido dedicadíssima, não sai de perto dele um só minuto” (p. 73). O médico disse a Pombinha “que nunca encontrou criatura tão eficiente, tão amorosa, tem sido uma enfermeira e tanto” (p. 73). Com o emprego do adjetivo em grau superlativo absoluto sintético e dos advérbios de tempo e de intensidade, o narrador enfatiza a dedicação de Daniela.



A seguir, ocorre o desfecho do conto. Conceição dá a notícia a Ducha que Ed “tinha se matado com um tiro” (p. 73), o que a deixa assustada. “Mas aquele primeiro susto que levara quando me disseram que estava doente, fora um susto maior ainda” (p. 73). Ducha faz duas perguntas, ao saber da morte do tio: “Um tiro no ouvido?” (p. 73) e “Mas por que ele fez isso, Conceição?” (p. 73). A empregada não sabe responder a nenhuma das duas questões. Ninguém sabe porque Ed se matou – “Não deixou carta, nada, ninguém sabe! Vai ver que foi por causa da doença, não é mesmo? Você também não acha que foi por causa da doença?” (p. 73) – e Ducha concorda, “Acho (...) Pensava agora em tia Daniela metida num vestido preto. E de luva também preta, como não podia deixar de ser” (p. 73). O narrador estabelece uma analogia entre a morte do cachorro e a de Ed. A menina não falou “com ninguém” (p. 72) sobre a morte de Kleber. Assim, somente ela “sabe” o que realmente aconteceu. Entretanto, Ducha não presenciou nenhum dos fatos da história – apenas escuta comentários e diálogos, e vai tirando conclusões.



O Jardim Selvagem permite mais de uma leitura. Pode-se aderir à perspectiva de Ducha, que é uma “testemunha” dos fatos, apesar de não presenciá-los, e, ao juntar as peças desse quebra-cabeça, concluir-se-á que Daniela assassinou o marido. Pode-se, inclusive, inferir que a utilização da luva na mão direita já era algo premeditado, não haveria nenhuma lesão no membro, com o objetivo de evitar que as impressões digitais de Daniela fossem identificadas na arma do crime. Ela teria se casado com Ed, um homem rico, já com a intenção de matá-lo.



Entretanto, o único fato “verdadeiro” é que Daniela matou o cachorro, o que também pode ser encarado como um ato de bondade, com a finalidade de aliviar o sofrimento de um animal que não teria condições de se curar. Este acontecimento não teria nenhuma ligação com a morte de Ed. O mistério existiria apenas para os olhos de Ducha (ela estaria se tornando parecida com tia Pombinha que “tinha a mania de ver mistério em tudo” – p. 69). Daniela também pode ter praticado uma eutanásia em Ed, por gostar dele, e querer abreviar seu sofrimento – como fez com Kleber, que, de acordo com a cozinheira, teve uma morte rápida, sem dor aparente, “morreu ali mesmo, sem um gemido...” (p. 71). De qualquer forma, é interessante a estratégia utilizada pela autora, ao optar pelo emprego de uma criança como personagem e narradora, pela ambigüidade que isso provoca à narrativa. Ducha é esperta, irônica, curiosa – como a maioria das crianças.



Vive num ambiente de adultos e, de certa forma, até é considerada como adulta pela tia Pombinha. Em meio à rotina de casa-e-escola, vai colecionando dados sobre a nova tia misteriosa, que, aparentemente, nem chega a conhecer, e tecendo uma trama em que tudo se encaixa. A menina enxerga além dos fatos, consegue captar elementos que os adultos não percebem. Entretanto, não revela suas conclusões a ninguém – e nem poderia, é apenas uma criança, a quem, provavelmente ninguém daria crédito – afinal, a imaginação é outra característica própria das crianças.



Assim, como Ducha é a narradora, ela deixa de ser confiável duplamente, pois, devemos sempre desconfiar de um narrador autodiegético e, porque toda a história narrada pode ser apenas fruto de sua imaginação.



Fonte: Biblioteca Digital da UNESP

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